26/10/2021

mulher diz que PMs tentaram convecê-la a desistir de denúncia contra namorado após ser espancada

Dani, aos 33 anos, depois de quatro anos de relacionamento, foi vítima de violência doméstica na madrugada do último domingo (13), na Ponta Negra, em Manaus. Por mais de uma hora, ela levou pontapés e chegou a ser estrangulada até conseguir se trancar no banheiro e pedir socorro. Ela alega que, já na delegacia para registrar queixa, ouviu policiais questionarem: “O processo é muito demorado… Tem certeza?”.

Em conversa com o G1, por telefone, Dani – que não terá nome ou sobrenome divulgados – detalhou as horas de desespero e desamparo que passou dentro do apartamento com o namorado e, depois, na delegacia, com os policiais militares. “Insistiam em dizer que ele estava muito alterado”.

Questionada sobre a atitude dos PMs, em nota, a Polícia Militar do Amazonas afirmou não compactuar com condutas com desvios e não coesas. Um processo foi aberto na Corregedoria-Geral da SSP-AM.

“Eu precisava de instrução. A polícia chegou, depois que meu porteiro conseguiu me salvar de dentro do banheiro, e aí eles [policiais] passaram um tempo dentro do apartamento conversando com ele [agressor]. Não fizeram a prisão em flagrante. Mesmo vendo o tanto que eu sangrava. Levaram ele no banco de trás da viatura e eu tive que ir dirigindo, sozinha e sem saber o que fazer, até a delegacia” conta.

“Não foi uma agressão, foi uma tentativa de homicídio. E ninguém quis fazer nada”

Companheiro desferiu tapas e socos no rosto de Dani — Foto: Arquivo Pessoal

Companheiro desferiu tapas e socos no rosto de Dani — Foto: Arquivo Pessoal

Já no Distrito Policial, Dani afirma que não recebeu nenhuma instrução. Era tarde da madrugada de domingo e ela acabara de ser espancada. Acabou saindo de lá do mesmo jeito que chegou: sem boletim de ocorrência, com o agressor livre, e dirigindo sozinha – mesmo com diversas escoriações.

“Eu só queria sair dali e ir para casa. Eles já não tinham feito o flagrante dele. Não me passavam nenhuma instrução. Nem me falaram sobre a Delegacia da Mulher. Eu simplesmente saí de lá sem nada”

“Um policial chegou por trás, me deu um tapinha nas costas e disse: ‘vamos conversar lá fora? É rapidinho’. E foi quando ele começou: ‘tem certeza que quer fazer isso?’, ‘ele está bêbado, alterado…’. Falaram até que eu ia ter que ter o trabalho de ir ao IML. ‘Tudo isso… O processo é muito demorado… Tem certeza?”

À essa altura, Dani decide anotar o nome dos oficiais e ir embora. Horas antes, conta, aproveitava uma festa tranquila ao lado do – até então – namorado.

As agressões

Os dois, no sábado (12), foram a uma festa. Muito bêbado, o homem começou a discussão dentro do carro, no caminho de volta para casa. Dani era quem dirigia e conta que ele chegou a jogar uma camisa no rosto dela, com o carro em movimento. O percurso foi de cerca de 20 minutos. “Da festa até o apartamento dele sendo xingada”.

“Em casa, muito alterado, eu comecei a filmá-lo, para pressionar. Foi quando ele veio para cima e me deu vários tapas. Esse foi só o começo. Ele me jogou na cama e me deu um mata-leão, começou a me estrangular. Eu sabia que, se eu fraquejasse, ia desmaiar. Se eu desmaiasse, ele ia me matar. Ele disse que ia me matar. Várias vezes”, relata, entre soluços.

Depois de mais de uma hora de agressões, Dani conseguiu morder o braço do agressor e correu para o banheiro. Chorava ao lembrar o que a família já aletava há um tempo: “Um dia ele ia tentar me matar. Ele era extremamente abusivo. Mas, quando a gente ama, a gente não vê”.

Exame de corpo delito foi feito mais de 24 horas depois das agressões — Foto: Arquivo Pessoal

Exame de corpo delito foi feito mais de 24 horas depois das agressões — Foto: Arquivo Pessoal

Ajuda na Delegacia da Mulher

Foi o pai de Dani que, já na segunda-feira, ciente da situação, a acompanhou na Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher (DECCM). Lá, finalmente, ela recebeu as instruções e conseguiu registrar o Boletim de Ocorrência. A titular da unidade, Débora Mafra, afirma que Dani realizou a denúncia ainda muito nervosa.

“É um caso muito triste, muito preocupante. Ela não recebeu as instruções, pelo o que conta. Demos andamento a todo o processo contra o suspeito e as medidas protetivas já estão sendo aplicadas”, comentou.

A vítima realizou o exame de corpo de delito na segunda-feira (14), mais de 24 horas depois da agressão. O inquérito policial já foi concluído e será remetido à justiça, segundo a Polícia Civil.

Fonte: G1

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