Thais Libni e Maria Helena provando Vori-vori em Campo Grande — Foto: Débora Ricalde/TV Morena
O prato típico paraguaio vori vori ganhou destaque mundial ao conquistar o primeiro lugar no ranking global do guia gastronômico TasteAtlas 2025/2026, superando receitas famosas de diversos países, incluindo a tradicional picanha brasileira. A conquista reforça a força da culinária regional sul-americana e evidencia a forte ligação cultural entre Brasil e Paraguai, especialmente nas cidades de fronteira como Bela Vista.
No ranking do TasteAtlas, a receita paraguaia ficou à frente de pratos icônicos da gastronomia mundial, como a pizza napolitana italiana e receitas tradicionais da Turquia, Indonésia e Peru. A picanha brasileira aparece na 15ª posição da lista, mantendo a presença do Brasil entre os grandes destaques da culinária internacional.
História e tradição em Bela Vista
A importância do prato na fronteira também foi destacada pela belavistense Maria Helena Lopes, que concedeu entrevista à TV Morena para contar como o vori vori faz parte da história de sua família.
Durante a entrevista, Maria Helena relembrou que a receita atravessa gerações e representa momentos de união, afeto e memória. Segundo ela, o preparo do prato vai além da culinária: é um ritual familiar, presente em reuniões e datas especiais, que simboliza a forte influência cultural paraguaia na região de fronteira.
O relato reforça como o vori vori não é apenas um prato reconhecido mundialmente, mas também um patrimônio afetivo de muitas famílias sul-mato-grossenses.

Preparado com técnica e poucos ingredientes, o prato exige equilíbrio entre o caldo de frango e as bolinhas de milho com queijo, consideradas a base da identidade da receita.
A receita representa apenas parte do que o Vori-vori significa para a família Lopes. Maria Helena é uma entre 18 irmãos, sendo nove homens e nove mulheres. Três nasceram no Paraguai e os demais nasceram antes da criação de Mato Grosso do Sul, estado criado há 48 anos, em 11 de outubro de 1977.
Ela nasceu em Bonito, mas foi criada em Bela Vista, onde a família vivia em uma chácara às margens do rio Apa.
“Lá a gente tinha de tudo. Todo mundo trabalhava, todo mundo plantava, todo mundo colhia. Todo mundo foi criado assim”, recorda.
Segundo ela, o pai não tinha relógio e o tempo do preparo era contado pela sombra do sol na casa. A mãe produzia linguiça e queijo, enquanto o pai fazia melado. O avô ajudava no cuidado da horta.
Além do valor cultural, o vori-vori também marca a história da comunidade paraguaia em Mato Grosso do Sul e contribuiu para a formação da Colônia Paraguaia em Campo Grande. O recente reconhecimento internacional reforça a importância do prato típico, consumido no dia a dia no país vizinho.
“Mais do que alimento, o vori-vori faz parte da identidade cultural do Paraguai e se torna uma memória afetiva para paraguaios e descendentes que vivem no estado”, como a família Lopes.
Prato ajudou a fundar a Colônia Paraguaia
Com o tempo, o Vori-vori passou a ter também ligação com a história da comunidade paraguaia em Mato Grosso do Sul. Maria Helena conta que o marido esteve entre os primeiros envolvidos na criação da Colônia Paraguaia no ano de 1973, em Campo Grande.
Segundo o Censo de 2022, Mato Grosso do Sul está entre os estados com maior número de residentes paraguaios no Brasil. O levantamento considera paraguaios que moravam no Paraguai até 2017 e imigraram para o estado. Ao todo, são 3.065 paraguaios, número que coloca Mato Grosso do Sul atrás apenas de São Paulo e Paraná.
Para arrecadar dinheiro, ela passou a cozinhar e vender pratos típicos, como chipa, sopa paraguaia e Vori-vori.
“Eu fazia chipa, sopa, Vori-vori para vender e arrecadar dinheiro. Íamos para a exposição com paneladas de Vori e Locro para conseguir arrecadar dinheiro e fazer a colônia”, conta.
Ela afirma que foram cerca de cinco anos de mobilização até que o projeto da construção da Colônia Paraguaia fosse concluído. “Batalhamos uns cinco anos direto para poder arrecadar dinheiro e levantar a colônia. Colocamos em pé. O primeiro barracão foi nós que fizemos”, relembra.
A Associação Colônia Paraguaia de Campo Grande é uma entidade sem fins lucrativos que preserva e fomenta a cultura paraguaia (música, dança, gastronomia) para mais de 80 mil imigrantes e descendentes. A associação procura valorizar a língua guarani e fortalecer os costumes tradicionais.

Receita simples, mais que exige técnica
Na casa da família Lopes, o preparo começa pelo tempero do frango. “O melhor é temperar de um dia para o outro”, ensina.
Na mistura, entram sal, vinagre e alho. No dia seguinte, ela doura o frango na panela e, na mesma gordura, refoga os temperos. Nesta preparação, foram usados cebola, pimentão e orégano. Em seguida, o frango vai para a panela de pressão com água, onde ferve por cerca de 10 minutos.
Enquanto isso, Maria Helena prepara as bolinhas, feitas com farinha de milho hidratada e queijo ralado. Para um pacote de farinha, ela utiliza cerca de uma xícara de queijo curado, que ajuda a dar liga e sabor.
A recomendação é usar aos poucos a água do caldo para hidratar e amassar a massa até atingir o ponto ideal. “Não pode ficar nem muito mole, nem muito duro”, explica.
Após o frango ferver e a massa ficar pronta, as bolinhas são colocadas na panela e cozinham por mais 10 minutos. Maria Helena lembra que a farinha é pré-cozida e, por isso, não exige tanto tempo de cozimento. Ela também evita colocar sal diretamente na massa, já que o queijo costuma ser salgado.
Orgulho nacional
O Vori-vori, um dos pratos mais tradicionais do Paraguai, foi reconhecido como Patrimônio Cultural Gastronômico em 2017, junto ao locro e ao jopara. O título foi concedido pela Direção Nacional de Propriedade Intelectual (DINAPI) e pela Secretaria Nacional de Cultura, com o objetivo de preservar essas receitas como parte da identidade do país.
Além disso, a Junta Municipal de Assunção declarou o prato como patrimônio gastronômico e criou o Dia Nacional do Vori-vori, celebrado em 14 de abril. A data está ligada ao reconhecimento internacional do prato como um dos mais saborosos do mundo.
O destaque internacional do vori vori mostra que receitas simples, carregadas de história e tradição, podem conquistar reconhecimento global. Mais do que uma sopa tradicional, o prato representa a união entre culturas vizinhas e a valorização da culinária regional no cenário mundial, realidade vivida diariamente por famílias de Bela Vista.
Confira a matéria completa e a entrevista concedida à TV Morena pelo link abaixo:
Por Redação Bela Vista MS News
Fonte: Débora Ricalde, g1 MS — Mato Grosso do Sul
